São vários os fatores que interferem no desenvolvimento e na expressão da criatividade. Proponho aqui a análise crítica desses principais fatores, associando-os ao contexto sócio-educativo:
• As pressões sociais com relação ao indivíduo que diverge da norma- existem inúmeras situações em que o comportamento do aluno é confundido com indisciplina e rebeldia. Isto ocorre porque o grupo é constituído a partir de um processo de socialização fundado na uniformização das ações. Desse modo, originalidade, iniciativa e autenticidade são maldosamente enquadradas como comportamentos indesejáveis.
O professor como agente socializador, deve buscar o equilíbrio entre o cumprimento das normas e o livre exercício da criatividade. O desafio consiste em ter autoridade sem ser necessariamente autoritário.
• Aceitação pelo grupo como um dos valores mais cultivados- ser aceito pelo grupo e ser dar bem com os colegas são atributos almejados por professores e alunos. No entanto, como se manter integrado ao grupo e ao mesmo tempo preservar a identidade enquanto sujeito singular. A solução reside na postura do educador- o professor que valoriza e incentiva a autenticidade dos educandos serve como referencial (modelo) positivo capaz de promover ações efetivas em busca do ambiente propício ao ato criativo.
• Incompetência do Agente Socializador- em alguns casos evidencia-se a falta de qualificação profissional do discente na promoção de situações significativas de aprendizagem. Não se trata apenas de inadequação do processo ensino-aprendizagem- é um genuíno caso de “ensinagem” ou falta dela. Para ilustrar esse fenômeno, busco respaldo nas ideias do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, cuja vida escolar fora marcada pela incompetência e autoritarismo de um professor que o expulsara da escola alegando “insubordinação mental”. Somente mais tarde, já na fase madura, o poeta reage e escreve o poema transcrito a seguir, como forma de desabafo e crítica ao ensino tradicional que massifica, mecaniza, uniformiza e mata a criatividade:
"Para Sara, Raquel, Lia e para todas as crianças"
Eu queria uma escola que cultivasse
a curiosidade de aprender
que é em vocês natural.
Eu queria uma escola que educasse
seu corpo e seus movimentos:
que possibilitasse seu crescimento
físico e sadio. Normal
Eu queria uma escola que lhes
ensinasse tudo sobre a natureza,
o ar, a matéria, as plantas, os animais,
seu próprio corpo. Deus.
Mas que ensinasse primeiro pela
observação, pela descoberta,
pela experimentação.
E que dessas coisas lhes ensinasse
não só o conhecer, como também
a aceitar, a amar e preservar.
Eu queria uma escola que lhes
ensinasse tudo sobre a nossa história
e a nossa terra de uma maneira
viva e atraente.
Eu queria uma escola que lhes
ensinasse a usarem bem a nossa língua,
a pensarem e a se expressarem
com clareza.
Eu queria uma escola que lhes
ensinassem a pensar, a raciocinar,
a procurar soluções.
Eu queria uma escola que desde cedo
usasse materiais concretos para que vocês pudessem ir formando corretamente os conceitos matemáticos, os conceitos de números, as operações... pedrinhas... só porcariinhas!... fazendo vocês aprenderem brincando...
Oh! meu Deus!
Deus que livre vocês de uma escola
em que tenham que copiar pontos.
Deus que livre vocês de decorar
sem entender, nomes, datas, fatos...
Deus que livre vocês de aceitarem
conhecimentos "prontos",
mediocremente embalados
nos livros didáticos descartáveis.
Deus que livre vocês de ficarem
passivos, ouvindo e repetindo,
repetindo, repetindo...
Eu também queria uma escola
que ensinasse a conviver, a
coooperar,
a respeitar, a esperar, a saber viver
em comunidade, em união.
Que vocês aprendessem
a transformar e criar.
Que lhes desse múltiplos meios de
vocês expressarem cada
sentimento,
cada drama, cada emoção.
Ah! E antes que eu me esqueça:
Deus que livre vocês
de um professor incompetente.
(Carlos Drummond de Andrade)

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