segunda-feira, 24 de maio de 2010

A CEGUEIRA PEDAGÓGICA

               
              Em "Criatividade: múltiplas perspectivas" capítulo 5, especificamente no tópico “Fatores inibidores da criatividade no contexto educacional” as autoras fazem alusão aos sistemas educacionais que dificultam o desenvolvimento da capacidade criativa dos alunos por se pautarem quase que exclusivamente, num processo de ensino meramente reprodutivo e mecanicista.
              Neste cenário, contraditoriamente, conforme atesta Alencar e Rodrigues (1978), os traços valorizados em algumas escolas têm sido a obediência, a passividade e a dependência, enquanto os dias atuais exigem a formação de um sujeito dotado de autoconfiança, iniciativa, independência de pensamento e ação. No entanto, essa impossibilidade de formar indivíduos criativos em um sistema autoritário, ainda não é enxergada por grande parte dos professores.
                Nessa “cegueira pedagógica” a formação deficitária e a postura irreflexiva desses pseudo-docentes têm garantido a perpetuação e a continuidade de um modelo educacional obsoleto e anacrônico que já não atende às necessidades do mundo contemporâneo. Hoje, em consequência, as salas de aula transformaram-se em “praças de guerra”, contendo de um lado professores entrincheirados em seus saberes enciclopédicos e do outro, alunos supostamente inexperientes, mas ávidos por novidades e repletos de sonhos, imaginação e fantasia. Esses alunos poderiam ajudar na reconstrução de um novo modelo escolar, se o sistema desse a eles um maior espaço participativo. Seriam verdadeiras “luzes” a guiar-nos nesse sombrio “apagão educacional” em que nos encontramos. Definitivamente, com raríssimas exceções, a escola não sabe utilizar o potencial criativo dos alunos.

Sobre as  “Dinâmicas e Jogos vivenciais- o que está por traz do modismo”
               Em “Criatividade no Trabalho Pedagógico e Criatividade na Aprendizagem- uma relação necessária” a autora chama-nos à atenção para o fato da expressão “criatividade” está presente no vocabulário cotidiano das escolas. Fala-se em criatividade para qualificar pessoas e produtos. Desta maneira, identificamos alunos e professores criativos , assim como desenhos, textos e murais criativos. Porém, essa concepção de criatividade pode ser perigosa ao processo educacional, vejamos por quê.

               Para Mitjáns Martínez (2001) “criatividade é um processo complexo da subjetividade humana na sua simultânea condição de subjetividade individual e subjetividade social que se expressa na produção de ‘algo’ que é considerado ao mesmo tempo ‘novo’ e ‘valioso’ em um determinado campo da ação humana.” Por esta definição podemos inferir que a concepção de criatividade utilizada pela escola não leva em consideração o aspecto ‘valor’ como um dos critérios definidores da criatividade. Dessa forma, existe uma corrida entre os atores escolares (alunos, professores e gestores) em busca do ‘novo’ sem levar em conta o ‘valor’ de tal novidade em prol da qualificação do processo educativo.
               Esse apelo ao novo chega aos cursos de formação de professores em forma de dinâmicas e jogos vivenciais e trazem consigo a ideia errônea de que novidade e criatividade são sinônimos. Surgem então enxurradas de cursos de qualificação de professores em que as dinâmicas, suposta promotora da criatividade, passam a ser utilizadas como objetivos em si mesmos e não como recursos para o aprimoramento da aprendizagem. Esse modismo surgiu a partir das décadas de 1960 e 1970, em que a formação docente sofreu a influência do escolanovismo, que propunha a auto-educação e o aluno passou a ser considerado sujeito do conhecimento. Assim, o lugar privilegiado de prestígio até então ocupado pelo professor perdeu espaço e a educação centrou-se no aluno, passando o professor a ser considerado um orientador ou facilitador da aprendizagem. Nesta configuração, o bom professor seria aquele capaz de dominar métodos e técnicas que privilegiassem as relações interpessoais. Como conseqüência, os conhecimentos culturalmente acumulados (conteúdos) foram renegados ao segundo plano. Ocorreu, então, a quase total exclusão dos conteúdos curriculares. “O quê” (conteúdo) e “para quê” (objetivo) ficaram em segundo plano, enquanto “como ensinar” (método\técnica) ganhou enorme importância. Neste contexto, as dinâmicas e os jogos vivencias passaram a ser panacéias para tudo e a boa aula passou a ser aquela em que o aluno tem a possibilidade de se expressar, de expiar seus traumas e exorcizar seus demônios. Surgem os adeptos à aula-terapia que, em nome do suposto respeito à subjetividade e ao bem-estar emocional dos alunos, deixam de pensar a educação em sua plenitude. Por traz dessa aparente ludicidade e dinamicidade existe uma tentativa de esvaziamento dos conteúdos de ensino que vem prejudicando o desenvolvimento global dos educandos. É possível e necessário trabalhar com dinâmicas, mas, sem abrir mão dos conteúdos e dos objetivos de ensino. Afinal, nem só de ludicidade vive o homem. Pois somos a um só tempo: biológico, psíquico, social, afetivo e racional. Somos multidimensionais!
Referência:
• Alencar, Eunice Soriano de
         Criatividade: múltiplas perspectivas\ Eunice Soriano de
Alencar; Denise de Souza Fleith. – 3. Ed. – Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 2003,2009 (reimpressão).
220p. (Capítulo 5- Criatividade no contexto educacional)

• Criatividade no Trabalho Pedagógico e Criatividade
   na Aprendizagem- Uma relação necessária.
   Mitjáns Martínez, Albertina.

• FUSARI, J.C. A Educação do Educador em Serviço: treinamento
  de professores em Questão- Tese de Mestrado- PUC\SP-1998.

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